A moda de Quipapá


Em dois momentos distintos, nas últimas semanas, o município de Quipapá foi notícia em nossas páginas. No primeiro, como alvo da força das enxurradas que castigaram a região. Com a destruição de uma ponte, parte da população ficou isolada, habitando temporariamente uma ilha de desolação e angústia, e outra parte perdeu as casas, deixando a cidade em calamidade pública oficial. No segundo, mostramos como a força do empreendedorismo mobilizou mulheres da cidade, que se inscreveram em um curso de alta costura e inseriram Quipapá na moda de luxo feita no Brasil - neste caso, destacando uma nova ilha de excelência profissional no interior pernambucano.

Localizado na Zona da Mata, a cerca de 180 quilômetros do Recife, o pequeno município de 25 mil habitantes se desenvolveu à custa da cana-de-açúcar. O encerramento das atividades da usina em torno da qual ainda gravitava a economia local, há 16 anos, elevou a pressão do desemprego, estimulando as mulheres a trilharem outros caminhos. Com essa disposição fundamental para a mudança, o apoio da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco - AD Diper - e a orientação de um estilista de São Paulo, as aulas de alta costura que 23 delas receberam propiciaram frutos que servem de exemplo para todo o Nordeste. O trabalho delas foi elogiado em um dos mais importantes eventos do setor no País, a Fashion Rio, no último mês de maio, ganhando a credibilidade necessária para participar do disputado mercado nacional, caracterizado pela fabricação artesanal, pelo desenho diferenciado e pela qualificação sofisticada da mão de obra.

A presidente da Associação das Costureiras de Quipapá (Acoq), Lucinéia Melo, deu o tom da importância do evento para o futuro das costureiras. “Nosso sonho é estar, nos próximos anos, costurando para todo o País. Abrimos não apenas portas, mas vários janelões”, acredita Lucinéia. As criações do grupo estão sendo vendidas em São Paulo por, em média, R$ 1.200 cada - mais que o dobro da renda familiar que mantém a maioria dos quipapaenses. Em um desses janelões abertos pela Fashion Rio, uma grife pernambucana se interessou pelo trabalho do grupo, e entrou em contato com a Acoq para distribuir a produção em lojas para o público de classe A. O presente muda rapidamente, depois de germinada a semente da capacidade criativa. O próximo passo deve ser um salto na escala de produção, fazendo da moda de Quipapá uma marca valorizada em todo o Brasil.A satisfação pessoal que vem da realização profissional está apenas começando para as costureiras de Quipapá, cuja fama faz alvoroço na cidade, e de cujo destino pode surgir a nova vocação econômica municipal. Vocação que começa pelo design, que atraiu os olhares da moda nacional a partir da criação de uma ex-atleta de handebol e uma cabeleireira. E se elas descobriram a vocação e estão colhendo os resultados, é graças à visão correta de uma política de capacitação atrelada aos gargalos de nossa economia.

O projeto Pernambuco com Design representa um investimento de quase R$ 1,5 milhão até 2011, e vem desde 2007 formando mão-de-obra especializada para o setor têxtil, com a participação do Senai, do Senac, do Sebrae, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado, do Ministério da Cultura e das prefeituras dos municípios envolvidos. O projeto também formou costureiras em Passira e Brasília Teimosa, no Recife, e está de malas pront as para Fernando de Noronha, onde terá a contribuição do estilista Melk Z Da.
Em um mercado competitivo como o da alta costura, a busca de variedades criativas está sempre em evidência. A grata surpresa de Quipapá na Fashion Rio é uma prova de que precisamos investir mais na engenhosidade do nosso povo. A moda de Quipapá traz em sua gênese uma fórmula que precisa ser replicada em todo o Estado - deve ser uma “moda que pega” e não sai mais, ilustrando o fato sabido de que o investimento em educação é aquele de maior retorno social e econômico, possibilitando o vislumbre do desenvolvimento sustentável até em locais onde, até ontem, dominava uma economia de monocultura.

Extraído do JC

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